Eu tinha acabado de descobrir (ou seria perceber?) que Poseidon estava presente em minha vida desde…desde sempre.

Nasci no litoral. Apaixonada pelo mar. Desculpem-me, mas não sei morar longe daqui. Não sei viver em um lugar que eu não possa acordar sentindo o sal do mar. Onde, se eu passear perto de casa, não ouça o som das ondas bater nas rochas.

Meus olhos enchem de lágrima só de pensar se um dia o futuro me roubar esses sons.

Sim, sou muito sensível ao som.

Falatórios me deixam cansada muito fácil… mas… Mas a brisa batendo nas folhas das árvores me fascinam. A água caindo do céu me revigora. Já o som do mar…

O som do mar, sua vibração, sua força, sua energia…

Não tenho palavras.

Seja noite, seja dia, o mar me completa. Se eu só tocar a água salgada com os pés, já estou satisfeita. Se eu mergulhar, certamente será difícil me tirar de lá.

Um fato engraçado: eu não sei nadar. Nunca me interessei em tentar, para ser sincera. Contudo, houve 3 acontecimentos (que minha memória me permite contar) onde eu quase morri afogada… e foi por muito pouco.

A primeira vez aconteceu quando eu era criança. Existe um rio, infelizmente muito poluído, onde eu morava. Chamávamos apenas de “a maré”. Fui fazer algo por ali, não me lembro o que. Contudo, sei que eu ia para lá com frequência, apenas ver a água. Eu ficava muito triste por não poder nadar ali… Não sei como aconteceu, só sei que caí. Na tentativa de sair, enfiei o pé em uma mola. Meu nariz estava há apenas alguns míseros centímetros da superfície. Era bem de manhã, então quase não havia pessoas na rua. Eu lembro que não senti nada. Nem medo de morrer. Eu só… esfriei. Eu estava de olhos abertos, vendo o claro do dia, debaixo da água. Boca fechada, tentando prender a pouca respiração. Se hoje eu sofro com minha sinusite crônica, na época era bem pior. Ali, paralisada, eu senti uma mão segurar meu ombro e agitar a água. Eu sequer coloquei a mão para fora, não tentei sinalizar nada. Não pensei nisso. Mas alguém, alguém que me acompanhava, pensou. Eu senti um desespero que não era meu. Senti alvoroço. Então… alguém pulou na água. Senti remover a mola do meu pé… Me puxou com força para fora. Ainda paralisada, sem entender nada, eu fiquei surda por alguns segundos. Sentindo ainda o alvoroço que não era meu. O rapaz falava alguma coisa, acho que gritava pra ser sincera. Onde eu morava, as pessoas sabiam muito o nome dos vizinhos. Se conheciam até que bem. Logo surgiu minha mãe, desesperada.

Eu nunca esqueci isso, só não entendia. Que foi aquilo que senti?

A segunda vez que eu quase morri afogada… foi em Minas Gerais. Fui passear, passar uns dias com uma tia na fazenda dela. Lá tinha um pequeno lago, onde até pescavam. Só que no meio era realmente fundo. Muito fundo. Minha tia nos deixou mergulhar por lá. “Só na beira, gente!”. Eu tinha entre 13 e 14 anos. Minha prima queria muito mostrar que sabia nadar. Eu entendo, ela era menor que eu e estava contente por eu estar por lá. Quanto tempo não nos víamos? Ela foi e foi… Chamei e ela foi teimosa. Logo a vi perder o ritmo, e perder o ar… Eu sempre penso bastante quando preciso fazer algo por mim, mas nesses momentos eu não penso muito. Fui correndo ajudar. Mesmo não sabendo nadar. Antes de eu chegar, meus outros dois primos tentaram pegá-la. Também eram crianças… Quase foram junto. Pulei, abracei os 3 com meus bracinhos curtos e puxei. Chorando. Deus me livre meus primos morrerem e eu só ver. Puxei sem nem ter noção que meus pés não alcançavam o chão. Eu-não-sei-nadar. Eu só fui. E tirei eles de lá. Alguém me ajudou, Alguém de braço forte. Eu não tenho dúvidas. Agradeço demais.

A terceira vez foi pura irresponsabilidade minha. Eu estava cansada já, mas queria continuar na praia. Tanto insisti…Infelizmente, apesar de minha Senhora ser o Sol do Meio Dia, eu não o suporto. Logo fico fraca, desmaio. Não posso ficar muito mais que 30 minutos. E estava fazendo cerca de 40 graus. Eu perdi a consciência bem na hora que uma onda imensa bateu. Eu ia pular, fazer folia… Não fiz. Fui engolida.  Mesmo desmaiada, eu juro: eu ouvi alguém me dar um baita esporro. “Sua irresponsável! Eu mandei sair!”. Eu estava com meu namorado na praia, só que ele estava longe, quase na areia, não sei como me viu e me tirou dali. Quando ele chegou, eu já estava “bem”. Longe do perigo maior.

Porque uma mãozona me puxou, me xingando mesmo, mas puxou e me empurrou pra uma parte mais segura.

Hoje eu sei quem foi.

E quando lembro dessas coisas, eu me arrepio inteira. E ele sempre esteve comigo. Sempre falando muito, sempre fazendo, me puxando ou empurrando com suas ondas. Sutil, forte, gentil. O Mar é meu Pai. E eu tenho muito orgulho disso.

E foi lembrando dessas situações que eu cheguei até ele… e lhe pedi direção.

Queria algum ritual de conexão. Sei lá.

Ele apenas me mandou por as mãos na água. Respirar fundo. Mandou eu pensar no mar. Eu senti o amor infinito dele… e lembrei desses fatos. Mandou-me chorar. Pois as lágrimas são salgadas, expõe uma das matérias mais essenciais de nosso ser, da vida: água! Somos 70% água! Exprimir o sentimento através de lágrimas é uma bênção. Um livramento. Um alívio.

O mar não engole nada que não quer. Ele põe para fora.

Assim somos nós quando expomos de verdade o que sentimos.

Não ficamos com a dor, colocamos para fora no choro.

Ou num choro de alegria, ao sentir o amor de alguém que sentimos tanto carinho.

E ali, com as mãos na água, Ele só pediu que eu o deixasse falar comigo. Não palavras, mas energia. Certamente que eu deixei. Fechei os olhos e deixei o mar invadir minha alma.

Que me lavou, me ajudou a superar aqueles fatos… as quase mortes. Revelou que sim, foi ele. Mostrou, em rápidas visões, ele… no outro plano, fazendo a parte dele.

Senti a Força de Meu Pai Espiritual e suas orientações.

Então, quando tirei as mãos da água… eu era outra pessoa.

Hoje, não apenas coloco as mãos numa tigela com água. Eu entro no mar. Seja dia, seja noite. A qualquer momento da semana. Entro desesperada. Saio leve.

Com certezas, com confiança.

Uma muralha pronta para resgatar afogados, mesmo que eu não saiba nadar.

 

HEYA, POSEIDON!

 

Até a próxima!

Rosea Bellator
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